Arquivo do mês: maio 2014

Google e Twitch.TV: ambiente digital, estratégia tradicional

GoogleTwitchTV

Pelo visto, Google vai às compras novamente: a gigante da tecnologia digital deve comprar o Twitch.TV, maior site de streaming (transmissão on-line ao vivo) de games. Estima-se o valor de aquisição em US$ 1 bilhão.

Se a compra for confirmada, será apenas mais uma de cerca de 150 fusões e aquisições (!!!) conhecidas e efetuadas pelo Google entre 2001 e maio de 2014. A maior transação foi a compra da Motorola Mobile em 2011 por US$ 12 bilhões — que o Google tratou de revender no início de 2014 por quase US$ 3 bilhões.

Entre muitos aspectos interessantes, creio que vale a pena observarmos algo a partir do exemplo do Google. Trata-se de uma empresa bastante representativa de nossa pós-modernidade digital — era que se destaca por uma distribuição de poder mais horizontal em vez de vertical, consumidores mais ativos (cocriadores) e estruturas informacionais dinâmicas, flexíveis e incertas.

No entanto, em meio a todo esse delicioso banquete de caos criativo binário que uma empresa como o Google nos proporciona, a própria companhia — entre outras empresas do ramo digital — utiliza estratégias bem tradicionais para manter sua hegemonia, ou algo perto disso. É uma manifestação do ditado clássico “se não pode vencê-lo, junte a eles”, mas com uma pequena mudança: “se não pode vencê-lo, compre-o”. O Google, por meio de seu braço YouTube, nunca alcançou a popularidade em streaming que Twitch.TV obteve. Ora, se você 1) tem um monte de dinheiro, 2) sua concorrência está incomodando demais e 3) você não consegue vencê-la “na raça”, por meio da conquista dos internautas a partir da qualidade do seu produto… Compre seu concorrente! Por um lado, tal conclusão pode ser interpretada como bastante lógica e prática. Por outro, se levarmos em conta as características do meio digital, haveria algumas incongruências essenciais.

O que mais me fascina é exatamente ver algo tão clássico como estratégia de mercado (comprar a concorrência para concentrar poder e consolidar sua posição) ocorrer dentro de espaços sociais digitais que, por sua própria natureza tecnológica, tendem a espalhar, a pulverizar interesses e poder. Vamos ver até onde isso vai — e como tudo se desenrolará.