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Selfie: sobre histriônicas e narcisistas

À esquerda, Kim Kardashian mostra que entende do assunto. Do lado direito, o presidente dos EUA, Barack Obama, desafia a paciência da primeira-dama

Você já deve saber que o dicionário Oxford decretou “selfie” a palavra do ano de 2013 em novembro passado. Mas, e a razão? É que uma pesquisa conduzida pela Oxford Dictionaries registrou aumento do uso do termo “selfie” em 17.000% (!!!) nos últimos doze meses.

Esta palavrinha simpática tem por elemento formador principal “self” — o próprio ser, as individualidades que tornam alguém único. E é, em boa parte, do que se trata a selfie: um autorretrato digital, normalmente feito com um smartphone ou aparelho móvel similar. A história das selfies como autofotos digitais (prefiro não confundir com a dos autorretratos em geral, muito mais antiga) é tão intensa quanto breve: o primeiro uso foi registrado em 2002, e sua notoriedade disparou incrivelmente no fim de 2012 — especialmente entre jovens, a partir do uso das autofotos por celebridades. A coisa foi tão longe que o presidente dos EUA, Barack Obama, surpreendeu muita gente — e a própria esposa — ao participar de uma selfie com o primeiro-ministro da Inglaterra, David Cameron, e a primeira-ministra dinamarquesa, Helle Thorning-Schmidt. Para além da política, temos a socialite famosa (o que é isso, exatamente?) Kim Kardashian, que fez um vídeo para ensinar a fazer a selfie “perfeita”. Hum! Prefiro minha recente “medical selfie”, que gosto de considerar um subtipo de selfie, aliás. Só que não. Digo, #sqn.

Individualismo basta?
Antes do estouro das selfies, ainda em maio de 2012, o instituto de pesquisas digitais Pew Internet — também por meio de um livro — falou sobre “networked individualism”, ou individualismo em redes (sociais digitais). Mas, ora bolas, prefiro não jogar novas palavras importantes sem deixar claro como as uso. O que é “individualismo”? Um dicionário sugere, de maneira muito interessante, que individualismo é um “sistema oposto ao de associação”. Já a Wikipedia (em inglês) indica o individualismo como postura ou ideologia que coloca seu foco principal no indivíduo, acima do Estado, de instituições sociais e/ou de um grupo social. E como seria esse individualismo reformatado pelas tecnologias e redes digitais, afinal?

Como quase tudo na vida, tem seus prós e contras. O individualismo a partir das redes sociais digitais nos libertaria das restrições de grupos fechados, enquanto pede certo conhecimento técnico para lidar com as tecnologias; e, talvez mais importante ainda, exige um aprendizado para lidarmos com as novas e inúmeras possibilidades sociais de conexões em redes digitais. Ao longo desse aprendizado, como sempre, erros e acertos. E, partir daí, creio que a selfie pode ser interpretada como a síntese visual do individualismo na era digital; ou a maior manifestação (por agora) do sujeito feito objeto tecnologicamente. Mas talvez “individualismo” seja apenas uma gradação insuficiente — portanto, imprecisa — para falar de comportamentos cada vez mais exagerados e recorrentes.

O artigo “The Internet ‘Narcissism Epidemic’” (A epidemia de narcisismo na Internet), publicado em março de 2013, menciona um estudo de 2009 feito com 37 mil estudantes que carimba: atributos de personalidade considerados “narcisistas” cresceram tão rapidamente quanto a crise de obesidade desde 1980 até hoje. Outra pesquisa referenciada na matéria aponta que os “millennials”, ou geração Y (jovens nascidos entre 1980 e início dos anos 2000), têm um “nível de narcisismo maior do que gerações anteriores”. Cá entre nós: isso é quase como dizer que a água é molhada. Mas é sempre bom ter a ciência, o conhecimento formalizado a nosso lado.

Eu mesmo escrevi sobre “narcisismo digital” em junho de 2012, no post “Nossos umbigos digitais” — ainda antes do estouro das selfies. Este quadro também esbarra no assunto, que chama “A síndrome selfie: como as mídias sociais estão nos tornando narcisistas”; entretanto, se explorarmos o mesmo mais cientificamente, vamos encontrar coisas ainda mais interessantes. Não foi minha opção no texto do ano passado. Mas farei isto agora.

Para tratar de “narcisismo”, quero ir além do dicionário ou do senso comum. Por isso, vamos dar alguns passos cuidadosos na área da saúde (e da doença) mental. Consideremos o DSM-V, ou seja, o Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais: é uma referência criada pela Associação Americana de Psiquiatria e uma das mais usadas por profissionais de saúde no mundo inteiro — além de dar suporte a políticas e pesquisas. Para nós, a distinção mais importante a ser feita é entre o transtorno de personalidade histriônica (HPD) e o transtorno de personalidade narcisista (NPD). Há algo bastante curioso logo de cara: o primeiro distúrbio é muito mais comum entre mulheres — ocorre até quatro vezes mais nelas. Já as variadas formas de narcisismo são mais encontradas nos homens.

Vale a pena indicar que há pontos em comum entre os transtornos histriônico e narcísico: são espectros muitas vezes “cinzentos” de características complexas, e que têm interseções mesmo entre si. A partir disso, ambos HPD e NPD compartilham certo exibicionismo e inclinação ao flerte e ao drama (maior do que a de uma pessoa “comum”). A grande diferença é como esses pontos em comum se desenvolvem, além de outras características que distanciam HPD e NPD. Vamos tratar primeiro de conhecer melhor o HPD.

Miley Cyrus em uma selfie tirada em Las Vegas

Miley Cyrus em uma selfie tirada em Las Vegas

“Olhe para mim!”
Quem sofre de transtorno histriônico de personalidade (HPD) se destaca, acima de tudo, por buscar a atenção dos outros. Ponto. Ser o centro das atenções, a pessoa que se destaca, a mais olhada, a mais adorada… Tudo isso é fundamental para uma HPD. Ser sedutora, excessivamente vaidosa, flertar e provocar de modo inapropriado, constantemente usando charme e beleza para influenciar os outros, também são atributos definidores de uma HPD típica, assim como uma inclinação teatral e dramática: as “drama queens”, ou “rainhas do drama”, seriam o arquétipo da HPD. O distúrbio também faz com que a pessoa acredite que uma relação seja mais íntima do que é, de fato (por exemplo, uma HPD seria mais capaz de contar coisas extremamente íntimas para alguém que acabou de conhecer).

Há detalhes positivos na convivência com HPDs: podem ser muito estimulantes e agradáveis. No entanto, como elas (e eles) são muito vulneráveis às opiniões e elogios dos outros, podem ser mais facilmente manipuladas por pessoas que alimentem sua necessidade sem fim por atenção.

A partir daí, podemos fazer uma ponte entre algumas ideias. Há uma expressão um tanto rude, mas um bocado adequada para a discussão sobre HPD: “attention whore” (literalmente, prostituta de/por atenção). Dois aspectos distintivos de quem sofre de transtorno histriônico, como vimos, são: a elevada ocorrência entre mulheres e a busca intensa por atenção e por ser o centro das atenções. Sempre. O mais possível. Por pior que soe, “attention whore” é uma expressão muito precisa para retratar esses excessos ególatras por meio, particularmente, das selfies — afinal, não se discute com o poder das imagens, ainda mais importantes para quem prefere atrair com a beleza física, outro traço típico de HPD. Essa busca por atenção, no caso das redes sociais digitais, naturalmente se traduz em métricas como “curtir”, comentários e compartilhamentos. Por fim, a prevalência das mulheres no uso das selfies como uma manifestação que, no limite, pode ser interpretada como histriônica, também pode ser verificada neste infográfico feito pelo Huffington Post. Desça um pouco a partir do link e comece a contar quantas celebridades mulheres estão presentes na lista do “Top 25 celebridades no Twitter por postagem de selfies”: elas são as sete primeiras colocadas e 15 do total. Agora, chegou o momento de falar do outro distúrbio — o narcisista.

O político democrata Anthony Weiner em uma foto comportada

O político do partido Democrata, Anthony Weiner, em uma foto comportada

“Eu sou o bom!”
O transtorno de personalidade narcisista (NPD), além de ocorrer mais em homens, se define por um senso inflado da importância de si; ou seja, o indivíduo simplesmente acha que é superior e mais importante do que os outros. De outra maneira, é um amor-próprio que vai além dos limites do que se considera saudável: é arrogância e falta de empatia, exatamente porque foca demais (totalmente?) em si e não se importa com os outros.

Mais um aspecto distintivo do NPD é a preocupação com prestígio, sucesso e poder. É neste sentido que os narcisistas clínicos também tendem a supervalorizar suas conquistas e vitórias, ao mesmo tempo em que podem reagir muito mal a críticas — com raiva e vergonha, por exemplo. Apaixonar-se da noite para o dia é algo especialmente comum para narcisistas, pois, mais do que pessoas saudáveis, eles vivem de imagens projetadas, de ilusões — começando por eles próprios. Também por isso, e porque não sabem perder, os NPDs costumam sentir ciúmes mais intensamente, e podem reagir agressivamente se forem abandonados de alguma maneira.

O político americano do partido Democrata, Anthony Weiner, pode ser um bom exemplo de homem com (muitos!) atributos narcisistas. Apesar de casado, ele se envolveu em um escândalo sexual em 2011. Passados dois anos, Weiner (cujo sobrenome ironicamente se assemelha a um apelido para “pênis”, em inglês) foi pego de novo com a mão na massa: no meio de 2013, veio à tona que o político de 48 anos trocou mensagens muito quentes (o chamado “sexting”. Cuidado com este link, há conteúdo adulto) e selfies com diversas mulheres. Dentre essas, uma moça de 22 anos que, entre outras coisas, afirmou: Weiner seria extremamente possessivo com ela, apesar de ser casado e de seu envolvimento anterior em outro escândalo sexual — fortes indícios de falta de empatia. Não bastassem todas essas elaboradas e recorrentes homenagens a si mesmo, Weiner até enviou autofotos de suas partes privadas (eu disse que ele foi pego com a mão na massa, oras) e admitiu usar o nickname ou apelido digital “Carlos Danger”, o que foi interpretado como ofensa por alguns membros da comunidade latina nos EUA.

O total descaso do político com sua esposa e com o público (afinal, é um político), que se traduz em suas recorrentes peripécias digitais, mostra sua incapacidade de colocar a preocupação com os outros (empatia) acima de seus desejos pessoais, além da impossibilidade de cultivar uma relação íntima saudável — aspectos típicos de um NPD. Bônus: embora não existam estudos muito recentes sobre o assunto específico, a relação entre o transtorno de personalidade narcisista e a política parece estreita (de fato!); e também pode explicar e ser explicada, ao menos parcialmente, pela quantidade muito maior de homens na política.

Liberdades
No fim das contas, acredito que a melhor coisa para não deslizar até excessos histriônicos e/ou narcisistas no uso e publicação de selfies — se você tiver esta preocupação, claro — é o bom senso e a constante autoanálise e autocrítica a respeito da recorrência (quantidade) de fotos publicadas, bem como de seu conteúdo (qualidade). Agora, se o seu barato é mesmo entulhar seu perfil social  (e a tela dos outros) com selfies, vá em frente: é seu direito. Como é o dos outros bloquear, parar de seguir ou apagar seu perfil, obviamente.

Na “internet das coisas” (mais detalhes aqui e aqui), a maior — e melhor, e pior — coisa continua a ser nós mesmos: sujeitos-objetos pós-humanos, mediados por tecnologias digitais. Mas isso merece outro texto.

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