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Laços digitais e nossa pele de metal

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Muitos meses passaram, eu sei. Como a questão dos laços sociais e também afetivos me fascina muitíssimo no contexto digital, continuo no tema — particularmente, laços afetivos em ambiente online.

Por uma lógica simples, creio razoável assumir que “laços afetivos digitais” subentendem “laços sociais digitais”. Ou seja, estes últimos são pré-condição para a eventual ocorrência de laços afetivos em contexto digital. Aqui, considero “laços afetivos” os laços que caracterizam o envolvimento amoroso/romântico/sexual de um casal (tipicamente, mas de forma alguma unicamente, homem e mulher). Falo sobre laços sociais em minha dissertação (pág. 16, por exemplo) extensamente, mas seu bom senso deve bastar para acompanhar este texto.

Rebelde por excelência, a Internet e seus atributos — especialmente, seus desdobramentos sociais a partir de atividades hacker — já foram comparados ao terrorismo por Galloway (em inglês, pág. 151, por exemplo). Alguns se assustam com a comparação. Eu? Acho o máximo. Antes de tudo, porque é uma analogia que procede, é precisa, faz sentido. Depois, por haver na correlação um caráter metalinguístico muito discreto e interessante: Galloway ousa dizer o que as pessoas em geral, por estarem entorpecidas de uma lógica excessivamente politicamente correta, são incapazes de enxergar com clareza. E é essa mesma ousadia, rebeldia, o constante desafio dos limites que a própria internet (e os hackers, seu melhor exemplo neste particular) e os espaços sociais digitais têm em comum  com grupos terroristas. Se as motivações são boas, ruins, políticas, religiosas, financeiras… Não interessa para uma discussão unicamente científica.

Retomo os laços afetivos em contexto digital. É, não resisto a eles.

Duas manifestações marcadamente ousadas e socialmente relevantes ganharam destaque nas últimas semanas neste âmbito digital de laços afetivos (e, como já disse, sociais, portanto): uma é o serviço do site “Namoro Fake“, que permite aos internautas/indivíduos contratar uma “namorada falsa” — não achei referência a contratar namorado. O serviço cria, para seu cliente, uma namorada falsa no Facebook. Essa construção digital fará comentários e curtirá os posts do “namorado”, de maneira que seus amigos pensarão que ele tem, de fato, uma companheira. Este simples foco em prover a possibilidade de homens “ganharem moral junto às mulheres”, como o próprio site informa, mas sem o serviço (aparentemente e por agora) para uma mulher contratar um namorado falso já nos diz algumas coisas interessantes.

O próprio site informa: “estamos contratando perfis de mulheres para se passarem por namorada fake (…)”. Ênfase em contratar perfis de mulheres! Significa, possivelmente, que um homem que crie perfis falsos de mulheres talvez possa trabalhar com eles. Céus… Ah! Dentre os requisitos básicos, “ser uma mulher apresentável” — ênfase para apresentável, claro.

Dito isso, o que mais quero destacar aqui é, tão somente, o caráter ousado, rebelde, criativo, inovador e socialmente e romanticamente modificador desta iniciativa em contexto digital. Deixo algumas perguntas e provocações:

Como chegamos a isso? Precisamos disso? Se sim, por que precisamos disso? Será que é um negócio viável? Quantos homens já contrataram este serviço? Haverá mercado para as mulheres contratarem namorados falsos?

A segunda manifestação potencialmente “perturbadora” (em vários níveis) a respeito de laços sociais e afetivos é o “Darwin Dating“, site de namoro voltado para “pessoas bonitas” (novamente, o elemento do “apresentável”, o atributo estético — dá-lhe tecnocracia da sensualidade!). Apenas para registro, o Darwin Dating não é exatamente uma novidade: neste nicho, o “Beautiful People” surgiu bem antes (de acordo com o site, em 2001); e ainda há outros.

O que distingue o Darwin Dating é a linguagem nitidamente rude, grosseira e talvez cruel e humilhante que o site usa para estabelecer critérios estéticos. Exemplo logo na homepage do site: “Darwin Dating — Namoro online subtraído de pessoas feias” (tradução minha). Mas, pode-se argumentar, é também por meio dessa linguagem agressiva, ousada e rebelde, desafiadora de limites (do que seria politicamente correto, tipicamente cordial), que o Darwin Dating exerce, exatamente, sua digital liberdade para arbitrar sobre o que bem quer em seu espaço social. Doa a quem doer.

Talvez uma mensagem por trás de tudo isso seja: para sobreviver à era digital (com os nervos e emoções em bom estado), o ser humano precisa, contraditoriamente, ser menos sensível. Tolerar, suportar mais do que antes. Ser, em algum nível, mais forte; mais máquina. Se isso é necessariamente apenas bom ou ruim… Logging out.

Etiqueta móvel: as árvores somos nós

A Intel já tem os resultados da pesquisa anual “Mobile Etiquette” ou “Etiqueta Mobile” para 2012. O estudo conduzido pela Ipsos Observer em oito países — Brasil incluso — aponta resultados interessantíssimos. Alguns que aqui destaco:

• Nos EUA, 85% dos adultos compartilham informações online.
• No Brasil, aproximadamente 50% ou metade dos adultos e adolescentes compartilham informações online diariamente.
• Os brasileiros também compartilham informações online no banheiro (16%), cinemas (14%), durante um encontro romântico (13%) e funerais (3%).
• Ainda no Brasil, 33% dos adultos admitiram ter uma personalidade on-line diferente da vida real, enquanto 23% admitiram ter compartilhado informações pessoais falsas pela rede. Os homens são um pouco mais mentirosos do que as mulheres — 26% contra 21%.

E algo que considero problemático — e emblemático! — das interações digitais aparece reforçado pela pesquisa:

• A maioria dos adultos e adolescentes diz que as pessoas cometem “excessos no compartilhamento” e divulgam informações demais online.

Pois bem. O que chamei semanas atrás de narcisismo digital certamente é um dos elementos a considerarmos aqui: nenhuma vitrine se compara aos SRS (serviços ou sites de redes sociais). As pessoas simplesmente não resistem ao chamado da sereia cibernética; mais do que isso, apreciam, desejam, bebem desse néctar inebriante de zeros e uns com muito gosto. Seja para entulhar a timeline de nosso Facebook com fotos do que almoçaram, piadinhas de gosto duvidoso… Ou enviando indiretas para indivíduos publicamente. O que é, de certa forma, paradoxal — entre outras coisas menos elegantes.

Mais um detalhe curioso e contraditório indicado pela pesquisa “Etiqueta Mobile” de 2012 é que, apesar das pessoas estarem nitidamente incomodadas com esses excessos de informação e de compartilhamento online — e com a “falta de educação” dos outros —, elas não parecem dispostas a abrir mão do que reclamam. Ou seja, considerados prós e contras, o desejo de ficar digitalmente em evidência é ainda (muito) maior do que a vontade de comunicar-se em um ambiente menos poluído — onde é possível enxergar árvores “individualis” na floresta “digitalis”. E/ou, talvez, o referido incômodo seja, tão somente, a expressão do desagrado com a concorrência por visibilidade nas redes sociais digitais.

Egos inflados como bolhas em uma espuma; ou balões de hélio, segurados por estruturas tão frágeis — e esbarrando-se todo o tempo. Onde isso vai dar?

P.S.: se você pensou naquele vídeo sobre árvores e nozes… Pode se divertir um pouco clicando aqui. ;- )