Batman nos games: tecnologia e ressignificações sociais

Batman - Comparação1 Publiquei no blog do grupo de estudos Sociotramas “Batman nos games: tecnologia e ressignificações sociais”. Uma pequena viagem por alguns autores clássicos e reflexões sobre como um produto — no caso, jogos digitais de Batman — se modifica (ou não!) ao longo dos anos a respeito de estética, diversão e relações sociais. Acesse aqui o texto na íntegra.

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It’s a Match! Jovens e o jogo do flerte digital

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Casal que se conheceu no Tinder fez tatuagem com o símbolo do aplicativo. Reprodução/Instagram/luh_jahnke

Nosso grupo de estudos Sociotramas volta das férias! O texto é meu, sobre a intensa relação entre games e os sites e aplicativos de flerte e namoro, também chamada “gamificação”, especialmente entre os jovens. O artigo de 18 páginas em que este post foi baseado será publicado no próximo livro de nosso grupo de estudos.

Leia o texto aqui, no blog do Sociotramas.

Terror nas redes: propaganda e premediação

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Meu texto mais recente para o blog do grupo de estudos Sociotramas, de que participo desde o fim de 2011, é “Terror nas redes: propaganda e premediação“.

Abordo terrorismo nas redes sociais digitais, propaganda e “premediações”, conceito de Richard Grusin. Também falo sobre a dessensibilização relacionada a tudo isso: será que as pessoas estão mais insensíveis até mesmo ao terror por conta das tecnologias digitais?

Boa leitura! :- )

Google e Twitch.TV: ambiente digital, estratégia tradicional

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Pelo visto, Google vai às compras novamente: a gigante da tecnologia digital deve comprar o Twitch.TV, maior site de streaming (transmissão on-line ao vivo) de games. Estima-se o valor de aquisição em US$ 1 bilhão.

Se a compra for confirmada, será apenas mais uma de cerca de 150 fusões e aquisições (!!!) conhecidas e efetuadas pelo Google entre 2001 e maio de 2014. A maior transação foi a compra da Motorola Mobile em 2011 por US$ 12 bilhões — que o Google tratou de revender no início de 2014 por quase US$ 3 bilhões.

Entre muitos aspectos interessantes, creio que vale a pena observarmos algo a partir do exemplo do Google. Trata-se de uma empresa bastante representativa de nossa pós-modernidade digital — era que se destaca por uma distribuição de poder mais horizontal em vez de vertical, consumidores mais ativos (cocriadores) e estruturas informacionais dinâmicas, flexíveis e incertas.

No entanto, em meio a todo esse delicioso banquete de caos criativo binário que uma empresa como o Google nos proporciona, a própria companhia — entre outras empresas do ramo digital — utiliza estratégias bem tradicionais para manter sua hegemonia, ou algo perto disso. É uma manifestação do ditado clássico “se não pode vencê-lo, junte a eles”, mas com uma pequena mudança: “se não pode vencê-lo, compre-o”. O Google, por meio de seu braço YouTube, nunca alcançou a popularidade em streaming que Twitch.TV obteve. Ora, se você 1) tem um monte de dinheiro, 2) sua concorrência está incomodando demais e 3) você não consegue vencê-la “na raça”, por meio da conquista dos internautas a partir da qualidade do seu produto… Compre seu concorrente! Por um lado, tal conclusão pode ser interpretada como bastante lógica e prática. Por outro, se levarmos em conta as características do meio digital, haveria algumas incongruências essenciais.

O que mais me fascina é exatamente ver algo tão clássico como estratégia de mercado (comprar a concorrência para concentrar poder e consolidar sua posição) ocorrer dentro de espaços sociais digitais que, por sua própria natureza tecnológica, tendem a espalhar, a pulverizar interesses e poder. Vamos ver até onde isso vai — e como tudo se desenrolará.

Os 50 tons de cinza do Facebook: identidade sexual, minorias e o indivíduo

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Esta semana, publiquei um texto no blog do grupo de estudos Sociotramas (PUC-SP), de que participo desde 2011: “Os 50 tons de cinza do Facebook: identidade sexual, minorias e o indivíduo“. Boa leitura!

Selfie: sobre histriônicas e narcisistas

À esquerda, Kim Kardashian mostra que entende do assunto. Do lado direito, o presidente dos EUA, Barack Obama, desafia a paciência da primeira-dama

Você já deve saber que o dicionário Oxford decretou “selfie” a palavra do ano de 2013 em novembro passado. Mas, e a razão? É que uma pesquisa conduzida pela Oxford Dictionaries registrou aumento do uso do termo “selfie” em 17.000% (!!!) nos últimos doze meses.

Esta palavrinha simpática tem por elemento formador principal “self” — o próprio ser, as individualidades que tornam alguém único. E é, em boa parte, do que se trata a selfie: um autorretrato digital, normalmente feito com um smartphone ou aparelho móvel similar. A história das selfies como autofotos digitais (prefiro não confundir com a dos autorretratos em geral, muito mais antiga) é tão intensa quanto breve: o primeiro uso foi registrado em 2002, e sua notoriedade disparou incrivelmente no fim de 2012 — especialmente entre jovens, a partir do uso das autofotos por celebridades. A coisa foi tão longe que o presidente dos EUA, Barack Obama, surpreendeu muita gente — e a própria esposa — ao participar de uma selfie com o primeiro-ministro da Inglaterra, David Cameron, e a primeira-ministra dinamarquesa, Helle Thorning-Schmidt. Para além da política, temos a socialite famosa (o que é isso, exatamente?) Kim Kardashian, que fez um vídeo para ensinar a fazer a selfie “perfeita”. Hum! Prefiro minha recente “medical selfie”, que gosto de considerar um subtipo de selfie, aliás. Só que não. Digo, #sqn.

Individualismo basta?
Antes do estouro das selfies, ainda em maio de 2012, o instituto de pesquisas digitais Pew Internet — também por meio de um livro — falou sobre “networked individualism”, ou individualismo em redes (sociais digitais). Mas, ora bolas, prefiro não jogar novas palavras importantes sem deixar claro como as uso. O que é “individualismo”? Um dicionário sugere, de maneira muito interessante, que individualismo é um “sistema oposto ao de associação”. Já a Wikipedia (em inglês) indica o individualismo como postura ou ideologia que coloca seu foco principal no indivíduo, acima do Estado, de instituições sociais e/ou de um grupo social. E como seria esse individualismo reformatado pelas tecnologias e redes digitais, afinal?

Como quase tudo na vida, tem seus prós e contras. O individualismo a partir das redes sociais digitais nos libertaria das restrições de grupos fechados, enquanto pede certo conhecimento técnico para lidar com as tecnologias; e, talvez mais importante ainda, exige um aprendizado para lidarmos com as novas e inúmeras possibilidades sociais de conexões em redes digitais. Ao longo desse aprendizado, como sempre, erros e acertos. E, partir daí, creio que a selfie pode ser interpretada como a síntese visual do individualismo na era digital; ou a maior manifestação (por agora) do sujeito feito objeto tecnologicamente. Mas talvez “individualismo” seja apenas uma gradação insuficiente — portanto, imprecisa — para falar de comportamentos cada vez mais exagerados e recorrentes.

O artigo “The Internet ‘Narcissism Epidemic’” (A epidemia de narcisismo na Internet), publicado em março de 2013, menciona um estudo de 2009 feito com 37 mil estudantes que carimba: atributos de personalidade considerados “narcisistas” cresceram tão rapidamente quanto a crise de obesidade desde 1980 até hoje. Outra pesquisa referenciada na matéria aponta que os “millennials”, ou geração Y (jovens nascidos entre 1980 e início dos anos 2000), têm um “nível de narcisismo maior do que gerações anteriores”. Cá entre nós: isso é quase como dizer que a água é molhada. Mas é sempre bom ter a ciência, o conhecimento formalizado a nosso lado.

Eu mesmo escrevi sobre “narcisismo digital” em junho de 2012, no post “Nossos umbigos digitais” — ainda antes do estouro das selfies. Este quadro também esbarra no assunto, que chama “A síndrome selfie: como as mídias sociais estão nos tornando narcisistas”; entretanto, se explorarmos o mesmo mais cientificamente, vamos encontrar coisas ainda mais interessantes. Não foi minha opção no texto do ano passado. Mas farei isto agora.

Para tratar de “narcisismo”, quero ir além do dicionário ou do senso comum. Por isso, vamos dar alguns passos cuidadosos na área da saúde (e da doença) mental. Consideremos o DSM-V, ou seja, o Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais: é uma referência criada pela Associação Americana de Psiquiatria e uma das mais usadas por profissionais de saúde no mundo inteiro — além de dar suporte a políticas e pesquisas. Para nós, a distinção mais importante a ser feita é entre o transtorno de personalidade histriônica (HPD) e o transtorno de personalidade narcisista (NPD). Há algo bastante curioso logo de cara: o primeiro distúrbio é muito mais comum entre mulheres — ocorre até quatro vezes mais nelas. Já as variadas formas de narcisismo são mais encontradas nos homens.

Vale a pena indicar que há pontos em comum entre os transtornos histriônico e narcísico: são espectros muitas vezes “cinzentos” de características complexas, e que têm interseções mesmo entre si. A partir disso, ambos HPD e NPD compartilham certo exibicionismo e inclinação ao flerte e ao drama (maior do que a de uma pessoa “comum”). A grande diferença é como esses pontos em comum se desenvolvem, além de outras características que distanciam HPD e NPD. Vamos tratar primeiro de conhecer melhor o HPD.

Miley Cyrus em uma selfie tirada em Las Vegas

Miley Cyrus em uma selfie tirada em Las Vegas

“Olhe para mim!”
Quem sofre de transtorno histriônico de personalidade (HPD) se destaca, acima de tudo, por buscar a atenção dos outros. Ponto. Ser o centro das atenções, a pessoa que se destaca, a mais olhada, a mais adorada… Tudo isso é fundamental para uma HPD. Ser sedutora, excessivamente vaidosa, flertar e provocar de modo inapropriado, constantemente usando charme e beleza para influenciar os outros, também são atributos definidores de uma HPD típica, assim como uma inclinação teatral e dramática: as “drama queens”, ou “rainhas do drama”, seriam o arquétipo da HPD. O distúrbio também faz com que a pessoa acredite que uma relação seja mais íntima do que é, de fato (por exemplo, uma HPD seria mais capaz de contar coisas extremamente íntimas para alguém que acabou de conhecer).

Há detalhes positivos na convivência com HPDs: podem ser muito estimulantes e agradáveis. No entanto, como elas (e eles) são muito vulneráveis às opiniões e elogios dos outros, podem ser mais facilmente manipuladas por pessoas que alimentem sua necessidade sem fim por atenção.

A partir daí, podemos fazer uma ponte entre algumas ideias. Há uma expressão um tanto rude, mas um bocado adequada para a discussão sobre HPD: “attention whore” (literalmente, prostituta de/por atenção). Dois aspectos distintivos de quem sofre de transtorno histriônico, como vimos, são: a elevada ocorrência entre mulheres e a busca intensa por atenção e por ser o centro das atenções. Sempre. O mais possível. Por pior que soe, “attention whore” é uma expressão muito precisa para retratar esses excessos ególatras por meio, particularmente, das selfies — afinal, não se discute com o poder das imagens, ainda mais importantes para quem prefere atrair com a beleza física, outro traço típico de HPD. Essa busca por atenção, no caso das redes sociais digitais, naturalmente se traduz em métricas como “curtir”, comentários e compartilhamentos. Por fim, a prevalência das mulheres no uso das selfies como uma manifestação que, no limite, pode ser interpretada como histriônica, também pode ser verificada neste infográfico feito pelo Huffington Post. Desça um pouco a partir do link e comece a contar quantas celebridades mulheres estão presentes na lista do “Top 25 celebridades no Twitter por postagem de selfies”: elas são as sete primeiras colocadas e 15 do total. Agora, chegou o momento de falar do outro distúrbio — o narcisista.

O político democrata Anthony Weiner em uma foto comportada

O político do partido Democrata, Anthony Weiner, em uma foto comportada

“Eu sou o bom!”
O transtorno de personalidade narcisista (NPD), além de ocorrer mais em homens, se define por um senso inflado da importância de si; ou seja, o indivíduo simplesmente acha que é superior e mais importante do que os outros. De outra maneira, é um amor-próprio que vai além dos limites do que se considera saudável: é arrogância e falta de empatia, exatamente porque foca demais (totalmente?) em si e não se importa com os outros.

Mais um aspecto distintivo do NPD é a preocupação com prestígio, sucesso e poder. É neste sentido que os narcisistas clínicos também tendem a supervalorizar suas conquistas e vitórias, ao mesmo tempo em que podem reagir muito mal a críticas — com raiva e vergonha, por exemplo. Apaixonar-se da noite para o dia é algo especialmente comum para narcisistas, pois, mais do que pessoas saudáveis, eles vivem de imagens projetadas, de ilusões — começando por eles próprios. Também por isso, e porque não sabem perder, os NPDs costumam sentir ciúmes mais intensamente, e podem reagir agressivamente se forem abandonados de alguma maneira.

O político americano do partido Democrata, Anthony Weiner, pode ser um bom exemplo de homem com (muitos!) atributos narcisistas. Apesar de casado, ele se envolveu em um escândalo sexual em 2011. Passados dois anos, Weiner (cujo sobrenome ironicamente se assemelha a um apelido para “pênis”, em inglês) foi pego de novo com a mão na massa: no meio de 2013, veio à tona que o político de 48 anos trocou mensagens muito quentes (o chamado “sexting”. Cuidado com este link, há conteúdo adulto) e selfies com diversas mulheres. Dentre essas, uma moça de 22 anos que, entre outras coisas, afirmou: Weiner seria extremamente possessivo com ela, apesar de ser casado e de seu envolvimento anterior em outro escândalo sexual — fortes indícios de falta de empatia. Não bastassem todas essas elaboradas e recorrentes homenagens a si mesmo, Weiner até enviou autofotos de suas partes privadas (eu disse que ele foi pego com a mão na massa, oras) e admitiu usar o nickname ou apelido digital “Carlos Danger”, o que foi interpretado como ofensa por alguns membros da comunidade latina nos EUA.

O total descaso do político com sua esposa e com o público (afinal, é um político), que se traduz em suas recorrentes peripécias digitais, mostra sua incapacidade de colocar a preocupação com os outros (empatia) acima de seus desejos pessoais, além da impossibilidade de cultivar uma relação íntima saudável — aspectos típicos de um NPD. Bônus: embora não existam estudos muito recentes sobre o assunto específico, a relação entre o transtorno de personalidade narcisista e a política parece estreita (de fato!); e também pode explicar e ser explicada, ao menos parcialmente, pela quantidade muito maior de homens na política.

Liberdades
No fim das contas, acredito que a melhor coisa para não deslizar até excessos histriônicos e/ou narcisistas no uso e publicação de selfies — se você tiver esta preocupação, claro — é o bom senso e a constante autoanálise e autocrítica a respeito da recorrência (quantidade) de fotos publicadas, bem como de seu conteúdo (qualidade). Agora, se o seu barato é mesmo entulhar seu perfil social  (e a tela dos outros) com selfies, vá em frente: é seu direito. Como é o dos outros bloquear, parar de seguir ou apagar seu perfil, obviamente.

Na “internet das coisas” (mais detalhes aqui e aqui), a maior — e melhor, e pior — coisa continua a ser nós mesmos: sujeitos-objetos pós-humanos, mediados por tecnologias digitais. Mas isso merece outro texto.

O que é ridículo

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Pobre eLucidez… Abandonado às traças. Mas, nem tudo é vazio e perdição! Escrevi para o Sociotramas esta semana! :- D

Aproveito que participei do programa Encontro com Fátima Bernardes na quarta passada (18/9) para refletir a respeito de identidades, transparência e certas interações entre uma mídia clássica de massa (a TV) e as redes sociais em mídias digitais.

Afinal de contas, nesta pós-modernidade torrencial, o que é ridículo? Leia aqui:
http://sociotramas.wordpress.com/2013/09/23/o-que-e-ridiculo/

Sociotramas — “#WANTED: faroeste nas redes”

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Esta semana, o post do blog de nosso grupo de estudos Sociotramas é de minha autoria! Pesquisei e fiz uma análise de como dois eventos muito recentes — especialmente o atentado terrorista em Boston — afetam e são afetados pelas redes sociais digitais.

Você pode ler o texto aqui.

Laços digitais e nossa pele de metal

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Muitos meses passaram, eu sei. Como a questão dos laços sociais e também afetivos me fascina muitíssimo no contexto digital, continuo no tema — particularmente, laços afetivos em ambiente online.

Por uma lógica simples, creio razoável assumir que “laços afetivos digitais” subentendem “laços sociais digitais”. Ou seja, estes últimos são pré-condição para a eventual ocorrência de laços afetivos em contexto digital. Aqui, considero “laços afetivos” os laços que caracterizam o envolvimento amoroso/romântico/sexual de um casal (tipicamente, mas de forma alguma unicamente, homem e mulher). Falo sobre laços sociais em minha dissertação (pág. 16, por exemplo) extensamente, mas seu bom senso deve bastar para acompanhar este texto.

Rebelde por excelência, a Internet e seus atributos — especialmente, seus desdobramentos sociais a partir de atividades hacker — já foram comparados ao terrorismo por Galloway (em inglês, pág. 151, por exemplo). Alguns se assustam com a comparação. Eu? Acho o máximo. Antes de tudo, porque é uma analogia que procede, é precisa, faz sentido. Depois, por haver na correlação um caráter metalinguístico muito discreto e interessante: Galloway ousa dizer o que as pessoas em geral, por estarem entorpecidas de uma lógica excessivamente politicamente correta, são incapazes de enxergar com clareza. E é essa mesma ousadia, rebeldia, o constante desafio dos limites que a própria internet (e os hackers, seu melhor exemplo neste particular) e os espaços sociais digitais têm em comum  com grupos terroristas. Se as motivações são boas, ruins, políticas, religiosas, financeiras… Não interessa para uma discussão unicamente científica.

Retomo os laços afetivos em contexto digital. É, não resisto a eles.

Duas manifestações marcadamente ousadas e socialmente relevantes ganharam destaque nas últimas semanas neste âmbito digital de laços afetivos (e, como já disse, sociais, portanto): uma é o serviço do site “Namoro Fake“, que permite aos internautas/indivíduos contratar uma “namorada falsa” — não achei referência a contratar namorado. O serviço cria, para seu cliente, uma namorada falsa no Facebook. Essa construção digital fará comentários e curtirá os posts do “namorado”, de maneira que seus amigos pensarão que ele tem, de fato, uma companheira. Este simples foco em prover a possibilidade de homens “ganharem moral junto às mulheres”, como o próprio site informa, mas sem o serviço (aparentemente e por agora) para uma mulher contratar um namorado falso já nos diz algumas coisas interessantes.

O próprio site informa: “estamos contratando perfis de mulheres para se passarem por namorada fake (…)”. Ênfase em contratar perfis de mulheres! Significa, possivelmente, que um homem que crie perfis falsos de mulheres talvez possa trabalhar com eles. Céus… Ah! Dentre os requisitos básicos, “ser uma mulher apresentável” — ênfase para apresentável, claro.

Dito isso, o que mais quero destacar aqui é, tão somente, o caráter ousado, rebelde, criativo, inovador e socialmente e romanticamente modificador desta iniciativa em contexto digital. Deixo algumas perguntas e provocações:

Como chegamos a isso? Precisamos disso? Se sim, por que precisamos disso? Será que é um negócio viável? Quantos homens já contrataram este serviço? Haverá mercado para as mulheres contratarem namorados falsos?

A segunda manifestação potencialmente “perturbadora” (em vários níveis) a respeito de laços sociais e afetivos é o “Darwin Dating“, site de namoro voltado para “pessoas bonitas” (novamente, o elemento do “apresentável”, o atributo estético — dá-lhe tecnocracia da sensualidade!). Apenas para registro, o Darwin Dating não é exatamente uma novidade: neste nicho, o “Beautiful People” surgiu bem antes (de acordo com o site, em 2001); e ainda há outros.

O que distingue o Darwin Dating é a linguagem nitidamente rude, grosseira e talvez cruel e humilhante que o site usa para estabelecer critérios estéticos. Exemplo logo na homepage do site: “Darwin Dating — Namoro online subtraído de pessoas feias” (tradução minha). Mas, pode-se argumentar, é também por meio dessa linguagem agressiva, ousada e rebelde, desafiadora de limites (do que seria politicamente correto, tipicamente cordial), que o Darwin Dating exerce, exatamente, sua digital liberdade para arbitrar sobre o que bem quer em seu espaço social. Doa a quem doer.

Talvez uma mensagem por trás de tudo isso seja: para sobreviver à era digital (com os nervos e emoções em bom estado), o ser humano precisa, contraditoriamente, ser menos sensível. Tolerar, suportar mais do que antes. Ser, em algum nível, mais forte; mais máquina. Se isso é necessariamente apenas bom ou ruim… Logging out.

Supermercados de gente

Escrevi “Supermercados de gente“, um elaborado post para o blog do grupo de estudos Sociotramas (PUC/TIDD), do qual sou integrante.

Amor líquido, sites de namoro, fragilidade de laços, Scarlett O’Hara e mais.

Respire fundo e abra sua mente. :- )